Simeone e todo o futebol

SPAIN SOCCER PRIMERA DIVISION

E Simeone mais uma vez vê o sonho da Champions ficar distante. E pela quarta vez seguida o algoz é o rival de Madrid, o Real. A vitória por 3×0 no Santiago Bernabéu coloca as chances do time do Vicente Calderon como mínimas.

Diferente das outras vezes. por enquanto foi apenas o jogo de ida, e o Real foi letal, venceu com um triplete de Cristiano e encaminhou mais uma vez aos merengues para a final.

É possível a virada? É. Vai acontecer? Acho dificílimo, só não digo impossível porque é futebol, mas eu ficarei perplexo se o Atlético avançar.  Será maior que o feito do Barcelona nessa mesma Champions.

Contudo, diferente das demais eliminações, essa parecia aquela onde o Atlético chegava “mais inteiro” ou mais confiante, se preferir. Durante todas as outras campanhas, tudo pareceu muito sofrido para Diego Simeone e companhia, a sensação é que era proibido ser fácil e não que tenha sido dessa vez, mas a confiança adquirida nesses últimos anos parece ter refletido na atuação do time, os duelos foram árduos, mas o time não parecia fazer uma força colossal para vencer.

E eis que nessa hora o futebol mostra suas facetas, como disse no texto de ontem sobre a declaração de Eduardo Baptista, não tem culpado, nem errado, o Atlético não achou seu jogo ontem, o Real sim e ainda teve seu astro maior extremamente decisivo. Cristiano Ronaldo não está brilhando esse ano, mas está decidindo no momento que o time precisou, foram 8 gols dos últimos 9 do time na Champions. É disparado o maior artilheiro da Champions na fase de mata mata, são 52 gols contra 37 de Messi e depois dos dois, o mais próximo é Thomas Muller com 19.

O Atlético mostrou que o planejamento, a tática e a técnica são primordiais para te levar nos últimas quatro edições de Champions, a duas finais, uma quartas e uma semi (podendo com um milagre virar final), mas o timing, o instante do jogo tem feito a diferença entre tornar o Atlético um campeão ou não.

O futebol tem sido levemente ingrato com o Atlético por não coroar o time com essa conquista da qual ele tem passado tão perto, mas ao mesmo tempo tem sido fabuloso ao permitir a uma torcida que não imaginava viver esse momento, viver por quatro temporadas seguidas.

Como diria, um “sábio mestre”, a bola dá, a bola tira.

E vocês acham que ainda dá para o Atlético?

 

O Caso Bruno e o lado do muro

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(Foto: Bernardo Pombo e Luiz Cláudio Amaral)

Passei o final de semana inteiro pensando sobre o ocorrido e não cheguei a uma conclusão, portanto quero dividir com vocês para ver o que vocês acham.

Sim, estamos falando de tudo que anda cercando o ex-goleiro do Flamengo, Bruno.

Ele que foi preso em 2013 e condenado a 22 anos e 3 meses de prisão por homícidio triplamente qualificado, sequestro, cárcere privado e ocultação de cádaver. A história que envolve ele, Macarrão e Eliza Samudio tomou conta dos noticiários no início de 2013.

Depois que 4 anos recém completados, quase 1/5 da pena total e quase 1/4 da pena em regime fechado, Bruno conseguiu um Habeas Corpus que permite que tenha liberdade condicional.

E então, Bruno resolveu tentar retomar a única profissão que aprendeu na vida, ser jogador de futebol, mas especificamente, como goleiro. E tão logo saiu, conseguiu vaga no Boa Esporte, clube de Minas Gerais que atenderia a demanda dele de continuar no estado e com projeção já que o time encontra-se na Série B do campeonato nacional.

Nem bem foi anunciado, o muro foi levantado, ou é um absurdo ele conseguir trabalhar, ou é legal ver o cara reconstruir sua vida.

Então, chegamos ao dilema, nesse mundo tão polarizado, onde você precisa escolher entre coxinha e mortadela, feminista ou machista, armado ou desarmado e etc. A falta de sensibilidade em entender o todo é latente nos dias atuais.

Sinceramente, não conheço Bruno, tampouco tenho alguma referência de alguém que conhece para dizer coisas boas ou ruins a seu respeito. Contudo, quero fazer algumas provocações.

Será que a revolta seria igual, se fosse uma figura não pública, ou melhor se o crime fosse lavagem de dinheiro de centenas de milhões, ou se desviasse todo o dinheiro da merenda escolar, qual seria o grau da revolta?

É tão absurdo acreditar na regeneração do ser humano, será mesmo que nunca aprendemos nada quando sofremos a punição devida?

E por fim, será que a revolta contra Bruno deve ser direcionada a ele ou ao nosso sistema judiciário? Do ponto de vista prático, o Brasil entendeu que ele já cumpriu o que devia, portanto tem direito a recomeçar.

Sobre a intenção do BOA esporte é sempre difícil, porque é um risco enorme de dar errado, como parece que vem acontecendo, o time está perdendo patrocinadores do clube.

Por fim, sobre tomar um lado da história, acho que eu topo ir para o lado da segunda chance, mas nesse caso, pretendo ficar bem perto do muro, caso perceba que ele jogou fora a segunda chance da vida.

Por nuestro e por nosso futebol

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Você sabe o que anda acontecendo no Uruguai?

A briga que os jogadores estão criando com a Federação Uruguaia (AUF) merecia maior atenção da nossa parte do que estamos dando. Porque para quem almejou que o Bom Senso fosse colaborar com a melhoria do futebol por aqui, quando vemos os jogadores da seleção se posicionando e realmente querendo arrumar o futebol do seu país, é de parar prestar atenção e bater palmas.

Os principais atletas uruguaios resolveram iniciar uma briga com a federação para que o dinheiro fosse melhor distribuído, dinheiro esse por muitas vezes conquistados “as custas” deles.

Os jogadores entendem que suas imagens são exploradas de forma arbitrária, sem o consentimento deles e consequentemente sem um entendimento adequado de como essa verba é revertida dentro do próprio futebol uruguaio. Em resumo, os que os atletas liderados por Lugano, Godin, Suarez e companhia é que além de maior quantidade do dinheiro repassado que exista uma transparência no processo.

Segundo o movimento, a empresa repassa US$ 10 milhões (R$ 30 milhões) por ano para ser repartido entre os clubes, sendo que tem um faturamento superior a US$ 60 milhões (R$ 183 milhões) – valor que não considera a arrecadação com patrocinadores, internet etc. Ou seja, entendem que a verba distribuída poderia ser bem maior.

E o protesto ganha cada vez mais proporções que mostram que os grandes craques não cederão a pressão, ontem, cerca de 500 jogadores protestaram para que o presidente atual da federação peça renúncia.

O movimento que ganhou a hashtag #masunidosquenunca o que mostra que a luta será firme e não só os atletas locais estão participando como contam com a voz dos principais atletas no apoio e atuantes.

Quando olhamos o vizinho e pensamos para cá, percebemos a diferença gigantesca no engajamento dos atletas em apoiarem a melhora do nosso futebol, primeiro porque não lembro de nenhum que faça parte das últimas convocações com postura ou voz que cobre reais melhorias no futebol.

São raros os atletas com grande nome de repercussão internacional com essa postura, hoje só vejo o craque Alex com essa postura.

Existe um problema cultural muito maior no nosso país que surge na educação e que nos deixa “menos” envolvidos com o olhar coletivo e a preocupação com os próximos e consequentemente menos preocupados em melhor onde atuamos, já que a minha parte deu certo.

Olhar para o Uruguai

e aprender com isso, pode ajudar a fazer de cada um melhor e naturalmente de todos “mais melhores” (com liçenca poética..rs) ainda.

Quem pariu Matheus, que assuma esse gato!!

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E a final da Copinha está agora sob possível intervenção jurídica.

O atleta do Paulista que atuou na Copinha com o nome de Brendon Matheus é acusado de ser 3 anos mais velho e que seu nome real seja Helton Matheus. Aqui não  pretendo entrar no mérito da questão jurídica, existe gente competente para verificar qual é o lado real da história, se Brendo é Brendo ou Helton.

Contudo, o caso revisitou um tema que parece distante, mas na verdade é muito frequente no nosso futebol, inclusive em campeonatos amadores entre colégios e mesmo na varzéa. Faz parte do nosso comportamento social tão nocivo que reflete em nossos governantes, mas isso é assunto para outro fórum. Quem tiver interesse, assista esse vídeo do Leandro Karnal que para mim é o resumo do que penso.

Voltando a nossa praia que é o futebol, o famoso “gato” é prática comum no Brasil, basta lembrarmos de Emerson Sheik, Sandro Hiroshi e até mesmo Vanderlei Luxemburgo, todos que comprovadamente já assumiram que tiveram suas idades adulteradas ainda na adolescência. Mas qual a origem e qual o tratamento real que se dá a esse mal no futebol?

Ai que entra meu conflito, nada realmente é feito, nenhuma pesquisa profunda e diagnóstico detalhado é feito, por fim,culpa-se apenas o atleta e às vezes o clube, quando comprovado seu envolvimento na adulteração, o que é sempre muito difícil.

A questão é entender isso na origem, o gato não sai da cabeça de um atleta, nenhum menino de 13, 14 anos opta por trocar a identidade para ficar mais novo, nem meio para fazer isso e tampouco mentalidade para isso ele tem. E algum parente mais velho, um empresário que já se “aposssou” do menino ou mesmo um burocrata do clube onde ele começa a dar os primeiros passos.

E no final, quando o caso vem à tona, ele está sozinho e mais uma vez individualizamos o problema e não tratamos a causa de forma real, vamos continuar acabando com carreiras de Brendons,Heltons, Sandros e por aí vai, talvez os exemplos de Sheik e Vanderlei sejam os unicos e inapropriados que deram certo, pois, dão a entender que com sorte pode haver impunidade, isso quando falamos dos conhecidos, e aqueles que passaram a carreira sem serem descobertos?

E não quero que Emersons e Vanderleis paguem e fiquem sem carreira, quero que o problema realmente seja tratado, olhado a fundo, para que os atletas tenham o direito de ter sua carreira livre de sujeira e construído ela pelo mérito próprio e não por uma troca de ano de nascimento.

Não adianta massacrar Brendon Matheus ou Helton Matheus, mas adaptando o ditado, quem pariu esse “novo” Matheus que cuide, ou melhor que se responsabilize por ele.

É tão importante ganhar título no subalgo?

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E as eliminações de Palmeiras e São Paulo pela Copinha reacenderam a velha discussão sobre o que é melhor ganhar um título subalgo ou revelar jogadores?

Eu sinceramente, tentarei ser sutil sobre o tema, porque não consigo entender alguém preferir realmente títulos subalgo do que revelar.

Eu não discuto o quanto é bacana ganhar um título, levantar uma taça, inclusive acho válido para o moleque valorizar uma conquista, mas será que o importante não é preparar esse atleta para essa transição, garantir que ele se acostume a um estádio cheio ao invés de apenas com familiares incentivando. Garantir que aquele talento apresentado com 16, 17 anos seja lapidado para continuar mostrando quando estiver no profissional?

Para mim, base é para revelar, se ganhar título ótimo, mas não é fundamental, acho que um jogador aprende mais na dor da derrota, do que na tranquilidade das vitórias fáceis. Nas categorias subalgo ganhar título não traz retorno, agora vender um Lucas ou um Gabriel Jesus é garantia de continuar o garimpo pelas jovens promessas.

O processo da base deve ser muito mais em envolver os jogadores com os profissionais, garantir uma passagem tranquila, buscar fazer um trabalho com o jovem além das quatro linhas, mas do que entender esquema de jogo, é entender cultura, filosofia, valores do time.

O Barcelona não precisa jogar igual da base ao profissional, basta que características fundamentais que eles valorizem sejam entendidas de maneira total por esse jovem. Será melhor e mais rentável para um time, você ter as suas gerações mais jovens completamente aderentes ao que o clube precisa do que simplesmente um time vencedor, uma geração vencedora no subalgo passa, ficam os troféus e o legado?

Quantas gerações vimos ganhar diversos títulos e não trazer nenhum retorno ou pouco retorno para o clube, vamos aproveitar a eliminação de Palmeiras e São Paulo para fazer o contraponto com o rival da capital, o Corinthians. o alvinegro é o maior vencedor da Copinha e o que realmente relevou ou trouxe de retorno para o clube de Parque São Jorge?

Lulinha, talvez o mais promissor, hoje perambula por centros menores, Marquinhos não teve a transição adequada, vendido precocemente, pouco dinheiro para o clube e hoje vale muitos milhões.

Já o Santos é o famoso caso que deu certo por necessidade, quando o clube se viu sem capacidade de competir com os rivais diante de suas receitas, decidiu tornar a base o principal ativo do clube e hoje é um clube formador, com referência e que todo empresário quer levar o seu melhor jogador para lá.

Por fim, os clubes precisam valorizar ainda mais o papel da base na sustentação do modelo de negócio de um clube, hoje é quase primordial para o sucesso , quanto a perder ou ganhar um título, deixa para o torcedor reclamar no dia, quando o moleque aparecer e virar craque no profissional, ele esquece rapidinho.

E aí, ele vai se perguntar se era tão importante assim ganhar um título no subalgo.

 

Neto: “Sempre vou lembrar a gente entrando no avião. Eu estava meio assim de voltar aqui…”

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Crédito: Página oficial da Chapecoense

“É uma situação muito difícil. A gente estava defendendo uma final. Vivi muito tempo com companheiros que se foram, mas Deus tem um propósito para todas as coisas e me escolheu para que algo fosse feito. Tenho que recuperar, porque tenho lesões importantes e uma hora ou outra eu teria que vir para cá e lembrar de tudo. É duro às vezes porque tinha gente que conhecia desde os 17 anos e ficamos sentidos com isso tudo. Tem uma hora que temos que encarar a realidade. Eu queria estar com eles, não aqui sozinho. Mas eu tenho que encarar isso.”

“A batida, como aconteceram as coisas ainda está muito frescas. A situação como acordei e vi todo mundo (equipe médica). Eu pensando só no jogo, né. A mente bloqueou tudo. eu perguntei pro doutor o que tinha acontecido comigo e a gente vê como as pessoas olham com outros olhos. Antes falavam que era jogar, como ídolo. Hoje as pessoas me veem como milagre. A gente vai contando aos amigos. A vida é uma luta constante.”

“Sempre vou lembrar a gente entrando no avião. Eu estava meio assim de voltar aqui. A gente tem que ser forte. Se chora de mais se deprime. Passar o Natal em casa, minha esposa falou que a primeira vez que me viu e não acreditava que era eu. Rasgou tudo: pálpebra, nariz, orelha, cabeça.”

“Eu tenho saudade, mas só penso coisas boas. A gente comentava muito entre a gente que não imaginávamos ir à final e falávamos que íamos ficar para a história. E a gente ficou na história de certa forma. Eu tenho que melhorar a minha mente. Vira e mexe eu me pego chorando quando lembro do que vivi aqui dentro, mas tenho que recuperar, tenho certeza que os caras estão com Deus. É um lugar melhor que a gente está, tenho certeza.”

“Primeiro tenho que recuperar minha saúde, minha mente, vir aqui é o que vai me dar força. Eu fiquei 10 dias apagado, em coma, então para me contarem a verdade foram mais 5 dias. 15 dias depois eu não sabia de nada. Para mim está sendo tudo meio novo, mas tenho que encarar, não tem para onde correr. Ou encaro e represento eles como eram ou vou me afundar em depressão.”

“Quando eu falo que estou um caco, minha esposa fala que eu não me vi antes. Para mim, eu estou muito mal. Não era para eu estar aqui. Tenho quase 10 kg para recuperar ainda. Eu me sinto frágil, lesão no pulso. Ninguém imagina estar em uma situação dessas. Eu não sabia nem ficar em pé e engolir comida. Quando entrei no chuveiro pela primeira vez parecia o mar do Caribe de tão bom”

“Eu fico emocionado de estar em casa, mas quem foi lá e me viu do início fica ainda mais emocionado que eu. Algumas pessoas falam que pensavam que eu fosse embora. Para mim tem sido uma bênção. A gente não escolhe. Eu falo para vocês: foi Deus que me colocou aqui”.

“A situação que vivi não tinha essa de força e treino. Eu sei que muita gente orou por mim quando descobriu que eu estava vivo. Eu não posso responder todo mundo. Eu gostava de ficar no celular e no videogame, eu fico até nervoso no videogame que eu perco: eu falo que não sou eu. A família me olha com um brilho. Eles me viram em uma situação precária”.

“Os médicos falaram que eu tenho tudo para voltar a jogar o mais rápido possível, talvez no meio do ano. Eu estou programando um passo de cada vez. tem que recuperar e depois a mental. Quando eu penso hoje que eu vou entrar em campo eu me vejo emocionado, mas eu tenho pensado muito em recuperar as lesões e andar sem muletas”

“Para mim fica uma lição de que coisas simples, estar com família, amigos, esposa, são momentos que parecem normal, mas a vida nossa…é como um sopro. A gente não sabe o dia de amanhã. Eu acho que estou melhorando bem. Tive uma lesão importante no joelho, na coluna, mas nada que seja cirúrgico. Eu acho que eu estou melhorando só de ver meu jeito. Foi algo muito grave e graças a Deus ainda tenho chance de voltar a jogar bola”

Essas declarações foram dadas por Neto hoje, ele que foi um dos sobreviventes da tragédia que levou quase todo o elenco da Chapecoense além de vários profissionais da imprensa esportiva.

Não tem como não tocar o coração e guardar o último parágrafo das declarações dele, em meio a tanto horror que segue nesse início de 2017, aprender ou reaprender o valor de uma vida que seja um mantra importante nesse ano.